Finalidade da avaliação imobiliária: base de valor e datas críticas


finalidade da avaliação imobiliária

 

A finalidade da avaliação imobiliária é o ponto de partida técnico que determina a base de valor aplicável, a data relevante e, em consequência, o número final. Quando a finalidade da avaliação imobiliária, a base de valor e as datas não estão alinhadas, é possível obter um relatório bem estruturado, mas inadequado para a decisão que o motivou.

Como perito avaliador de imóveis certificado pela CMVM, a maior fonte de erro que observo não é o método em si. É a leitura do número fora do seu enquadramento, isto é, sem propósito, sem base de valor explicitada e sem datas claramente distinguidas

Finalidade da avaliação imobiliária: como define a base de valor e a data de avaliação

Resposta direta: antes de discutir “quanto vale”, deve ficar claro para que serve a avaliação, em que base de valor assenta e a que data o valor é estimado. Sem esta clarificação, a finalidade da avaliação imobiliária fica subentendida e aumenta o risco de interpretações erradas.

As boas práticas internacionais e europeias exigem que os termos do trabalho sejam acordados e que o relatório seja transparente quanto ao propósito, bases, métodos e conclusões.

Finalidade da avaliação imobiliária: o que muda no relatório

A finalidade (purpose) define para que a avaliação será usada. Exemplos frequentes:

  • venda ou compra (apoio a decisão e negociação)
  • crédito hipotecário (uso bancário e garantia)
  • partilhas, heranças e divórcios (contexto jurídico e patrimonial)
  • reporte e controlo interno (contexto contabilístico)
  • expropriação e compensações (contexto legal específico)

O impacto prático é direto: o nível de prudência, o tipo de pressupostos e o detalhe do relatório podem variar com a finalidade. Por isso, a finalidade da avaliação imobiliária deve ser explicitada desde o início, para que o leitor compreenda o âmbito e as limitações do trabalho.

Base de valor: o conceito de valor muda o resultado

Resposta direta: “valor de mercado” e “valor de investimento” respondem a perguntas diferentes; não são sinónimos. Numa avaliação bem reportada, a base de valor é declarada de forma inequívoca, em coerência com a finalidade da avaliação imobiliária.

A base de valor deve ser indicada no relatório com a definição relevante e referência ao standard ou norma aplicável.

Valor de Mercado (Market Value)
Definição técnica adotada nas European Valuation Standards: o montante estimado pelo qual o imóvel deverá transacionar na data de avaliação, entre um comprador disposto e um vendedor disposto, numa transação em condições de independência (arm’s length), após adequada exposição ao mercado, em que as partes atuaram com conhecimento, prudência e sem coação.

Isto significa que:

  • é um montante estimado, não um preço garantido
  • é específico a uma data de avaliação
  • pressupõe exposição adequada ao mercado e partes informadas, prudentes e livres de coação
  • reflete uma transação em condições de independência

Valor de Investimento (Investment Value)
É um valor dependente do investidor e das suas premissas (estratégia, horizonte, custo de capital, sinergias e tolerância ao risco). Por isso, pode divergir do valor de mercado sem que exista “erro”; existe, sim, uma pergunta diferente. A escolha entre estas bases deve ser coerente com a finalidade da avaliação imobiliária.

Data de avaliação: o valor é sempre “a uma data”

Resposta direta: uma avaliação não é “eterna”; é um valor estimado num momento específico. Mesmo mantendo a mesma finalidade da avaliação imobiliária, uma alteração relevante nas condições pode justificar revalidação.

A interpretação de Market Value reforça que o valor é um juízo num ponto no tempo e que as condições de mercado podem tornar o valor inadequado noutra data.

Finalidade da avaliação imobiliária e as quatro datas críticas

Resposta direta: quatro datas diferentes podem coexistir; confundi-las conduz a valores aplicados fora do tempo. Em termos práticos, a finalidade da avaliação imobiliária só é bem compreendida quando as datas estão claramente separadas no relatório.

Data O que representa Risco típico se for confundida
Data de inspeção quando o imóvel foi observado e registado (condição, ocupação, acessos) assumir que o estado do imóvel não mudou
Data de avaliação a data a que o valor é estimado ler o valor como se fosse de outra data
Data do relatório quando o documento é emitido tratar a data do relatório como data do valor
Data de transação quando ocorre a compra e venda (ou outro ato) usar um valor antigo em negociação atual

Os standards europeus e não só, por exemplo as IVS, exigem, no reporte, a indicação da data de inspeção, da data de avaliação e da data de conclusão ou emissão do relatório. Esta transparência é essencial para a finalidade da avaliação imobiliária, porque evita leituras retrospetivas e comparações inválidas.

O erro mais caro: usar um valor certo para a finalidade errada

Resposta direta: o maior erro não é obter “um número diferente”. É obter um número correto, mas aplicado ao problema errado. Isto acontece quando a finalidade da avaliação imobiliária é assumida, mas não declarada e operacionalizada no relatório.

Cenário 1: “O banco avaliou, logo este é o preço de venda”

Uma avaliação para uso bancário e garantia tem um enquadramento próprio de prudência, documentação e finalidade. Pode servir como referência, mas não substitui, por si só, uma análise orientada para estratégia de venda e risco de tempo de mercado. A finalidade da avaliação imobiliária influencia o tipo de pressupostos e a leitura adequada do resultado.

Cenário 2: comparar um valor de investimento com anúncios e concluir que “o mercado está errado”

Um valor dependente de premissas específicas pode ser mais alto ou mais baixo do que a referência de mercado. A comparação direta, sem alinhar base de valor e finalidade da avaliação imobiliária, cria conclusões enganadoras e decisões mal fundamentadas.

Cenário 3: tratar a data do relatório como se fosse a data do valor

É um erro frequente e tecnicamente evitável. O valor deve ser lido à luz da data de avaliação e da evidência relevante para essa data. Para cumprir a finalidade da avaliação imobiliária, o relatório deve distinguir datas de forma explícita.

Checklist técnico: o que deve ser verificável antes do “número final”

Resposta direta: se estes itens não estiverem claros, o valor fica pouco defensável e facilmente mal utilizado.

Esta checklist permite validar se a finalidade da avaliação imobiliária está tecnicamente refletida no relatório, desde a definição do trabalho até à forma de reporte.

  • finalidade da avaliação explicitada (purpose)
  • base de valor indicada com definição relevante (por exemplo, Valor de Mercado)
  • data de avaliação indicada e distinguida da data do relatório
  • data de inspeção indicada
  • pressupostos e eventuais pressupostos especiais (quando existam)
  • identificação de limitações e dependência de informação de terceiros
  • declaração de inexistência de conflitos de interesse, ou descrição das salvaguardas

Em Portugal, no contexto regulatório aplicável ao perito avaliador, existem deveres de declaração e responsabilização no relatório, incluindo incompatibilidades e elementos de responsabilização. Estes elementos reforçam a clareza da finalidade da avaliação imobiliária e a confiança no uso do relatório.

Visão do Especialista

Resposta direta: o método vem depois. Primeiro fixa-se o enquadramento.

Como perito avaliador de imóveis certificado pela CMVM, a abordagem que reduz erros é consistente: começar por clarificar a finalidade da avaliação imobiliária, a base de valor e as datas. Só depois faz sentido discutir evidência comparável, ajustamentos e reconciliação. A separação explícita entre datas (inspeção, avaliação e relatório) é particularmente relevante porque evita leituras retrospetivas e comparações inválidas entre relatórios.

Em termos práticos, clarificar a finalidade da avaliação imobiliária reduz divergências, evita comparações inválidas e melhora a defensabilidade do valor.

FAQ

1) A avaliação do banco serve para definir o preço de venda?

Pode servir como referência, mas deve confirmar a finalidade, a base de valor e a data de avaliação. Um documento para garantia pode não ser o instrumento mais adequado para estratégia de venda. A leitura correta começa por identificar a finalidade da avaliação imobiliária.

2) “Valor de mercado” é o mesmo que justo valor?

Não é necessariamente o mesmo que justo valor. São conceitos distintos em determinados enquadramentos e normas. O essencial é que a base de valor esteja declarada e que a definição usada seja a aplicável ao propósito do trabalho, isto é, coerente com a finalidade da avaliação imobiliária.

3) A data do relatório é a data do valor?

Não. A data do valor é a data de avaliação. A data do relatório é a emissão do documento e pode ser posterior. Esta distinção é central para a finalidade da avaliação imobiliária e para a validade de comparações.

4) Porque podem existir dois valores diferentes para o mesmo imóvel?

Porque podem estar em causa finalidades e bases de valor diferentes, ou datas distintas. Mesmo com a mesma base e data, diferenças em evidência e pressupostos podem produzir resultados diferentes, desde que justificados e auditáveis. Em todos os casos, o primeiro filtro é a finalidade da avaliação imobiliária.

 

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