Homogeneização sem evidências na avaliação imobiliária

João Fonseca | Perito avaliador de imóveis | Homogeneização sem evidência na avaliação imobiliária

Homogeneização sem evidência na avaliação imobiliária: por que razão aplicar coeficientes não é avaliar

Na avaliação imobiliária contemporânea assiste-se a uma tendência crescente para a normalização excessiva dos resultados. Em nome da consistência, da comparabilidade e, muitas vezes, da eficiência processual, multiplicam-se coeficientes, fatores de ajustamento e grelhas de homogeneização aplicados quase automaticamente. O problema não reside na existência de ajustamentos, mas sim na sua utilização acrítica, desligada de evidência empírica observável no mercado. É neste contexto que a homogeneização sem evidência na avaliação imobiliária se torna um risco metodológico relevante. Quando a avaliação se transforma num exercício de aplicação mecânica de coeficientes, o rigor técnico deixa de resultar da análise do mercado e passa a ser apenas aparente. O valor obtido pode parecer preciso, mas não é necessariamente verdadeiro nem defensável.

 

O que é homogeneização sem evidência na avaliação imobiliária, e o que não é

A homogeneização consiste no processo de tornar comparáveis imóveis que, sendo semelhantes, apresentam diferenças relevantes. Trata-se de um instrumento legítimo e necessário em muitos contextos, sobretudo quando o mercado é imperfeito e os comparáveis nunca são rigorosamente idênticos. Contudo, importa distinguir claramente entre três realidades distintas: o ajustamento tecnicamente fundamentado, o ajustamento por hábito profissional e o ajustamento por conveniência metodológica. Apenas o primeiro corresponde a uma prática sólida. Os dois últimos introduzem enviesamentos que raramente são reconhecidos no relatório final. O erro mais comum consiste em confundir método com automatismo, assumindo que a repetição de fatores consagrados pela prática confere validade técnica, independentemente da sua adequação ao mercado concreto em análise.

 

Coeficientes sem evidência empírica na avaliação imobiliária: onde começa o problema

É frequente encontrar ajustamentos aplicados a variáveis como piso, orientação solar, estado de conservação, idade do edifício, exposição ou vistas, com percentagens aparentemente precisas e uniformes. A questão central raramente é colocada: onde está a evidência empírica que sustenta estes coeficientes? Na maioria dos casos, não existem estudos de mercado local, análises estatísticas robustas ou regressões econométricas que comprovem a magnitude do efeito atribuído. O coeficiente surge por replicação, não por demonstração. Sem uma amostra suficientemente ampla, homogénea e contextualizada, qualquer fator quantitativo corre o risco de ser arbitrário, mesmo quando apresentado com um elevado grau de detalhe numérico.

 

O risco metodológico da homogeneização sem evidência na avaliação imobiliária

Quando os coeficientes passam a comandar o processo avaliativo, ocorre uma inversão metodológica preocupante. O valor deixa de emergir do mercado para ser construído de modo a caber no modelo previamente definido. Esta abordagem reduz artificialmente a dispersão dos valores, produz resultados excessivamente convergentes e cria uma falsa sensação de controlo sobre a incerteza. Na prática, perde-se contacto com a liquidez real do mercado e com o comportamento efetivo dos compradores. O modelo deixa de ser um instrumento ao serviço da análise e passa a ser o seu condutor, condicionando conclusões que deveriam resultar da observação crítica dos dados disponíveis.

 

Juízo profissional na avaliação imobiliária: rigor não é arbitrariedade

Importa esclarecer um ponto essencial, sobretudo em contexto judicial: rejeitar coeficientes infundados não equivale a aceitar a subjetividade ou o arbítrio. O juízo profissional não é um exercício impressionista, mas uma síntese técnica informada. Um perito que reconhece as limitações dos dados, explicita as opções tomadas e assume a existência de intervalos de valor está a agir com maior rigor do que aquele que apresenta um número final excessivamente preciso, mas metodologicamente frágil. Em muitos casos, um ajustamento qualitativo devidamente justificado é mais defensável do que um coeficiente quantitativo sem base empírica comprovável.

 

Consequências práticas da homogeneização acrítica na avaliação imobiliária

A aplicação indiscriminada de fatores de ajustamento tem consequências relevantes. Produz valores artificialmente alinhados, dificulta a explicação de divergências entre peritos e fragiliza o relatório em sede de contraditório técnico. Além disso, transmite aos decisores a ideia errada de que a avaliação é um exercício exato, quando na realidade se trata de uma estimativa informada, dependente do contexto de mercado e das condições de transação. Esta fragilidade torna-se particularmente evidente quando o valor é escrutinado em tribunal ou utilizado como base para decisões patrimoniais irreversíveis.

 

O que deve ser exigido a ajustamentos técnicos na avaliação imobiliária

Qualquer ajustamento aplicado numa avaliação imobiliária deveria cumprir requisitos mínimos: evidência observável no mercado local, coerência com transações efetivas, relevância material no contexto concreto do imóvel e justificação escrita clara. Mais importante do que a precisão numérica é a coerência lógica do raciocínio e a transparência metodológica. Um ajustamento que não pode ser explicado não deveria ser utilizado.

 

Conclusão: homogeneização com evidência e rigor na avaliação imobiliária

Avaliar não é normalizar a realidade para que esta se adapte ao modelo. Avaliar é interpretar tecnicamente um mercado imperfeito, com espírito crítico e responsabilidade profissional. A homogeneização sem evidência empírica não aumenta o rigor da avaliação; apenas o simula. O verdadeiro rigor reside na capacidade do perito em pensar o mercado, justificar as suas opções e assumir, de forma clara, os limites da estimativa produzida.

 

Perguntas frequentes

O que significa homogeneização sem evidência na avaliação imobiliária?

Corresponde à aplicação de coeficientes e fatores de ajustamento sem suporte empírico demonstrável no mercado local, substituindo a análise de transações efetivas por percentagens replicadas por hábito profissional.

 

Quando é que um ajustamento técnico é defensável numa avaliação imobiliária?

Quando se apoia em evidência observável no mercado relevante, é coerente com comparáveis reais, é materialmente relevante para o caso concreto e está devidamente explicado no relatório, permitindo escrutínio técnico. O verdadeiro rigor reside na capacidade do perito avaliador de imóveis certificado pela CMVM em pensar o mercado, justificar as suas opções e assumir, de forma clara, os limites da estimativa produzida. A homogeneização sem evidência na avaliação imobiliária compromete esse rigor e fragiliza a credibilidade do valor apurado.

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