Está a preço!
É recorrente na mediação imobiliária afirmar que um imóvel
“está a preço”. Muitos consultores imobiliários afirmam que um imóvel “está a
preço”, com base num estudo de mercado que, na realidade, pode estar a refletir
o "Investment Value" para um grupo restrito de clientes, e não o
verdadeiro "Market Value" que emergiria de uma competição aberta.
No âmbito da avaliação de ativos, o "Investment
Value", para o perito avaliador de imóveis certificado, é definido como o valor que um ativo representa para um determinado
proprietário ou para um potencial adquirente, considerando os benefícios e
sinergias específicas que podem ser obtidas com a sua aquisição. Por outro
lado, o "Market Value" é o preço que seria alcançado numa transação
hipotética, realizada em condições de plena concorrência e em que ambas as
partes agem de forma independente e em condições "arm's length". Ou
seja, o "Market Value" pretende ser um indicador objetivo, que
reflete o equilíbrio entre oferta e procura num mercado amplamente exposto.
Quando os mediadores imobiliários declaram que um imóvel
“está a preço”, muitas vezes recorrem a uma lista de clientes previamente
selecionados para promover a venda. Estes clientes, que já demonstraram
interesse e que possuem perfis ou objetivos específicos, estão dispostos a
adquirir o imóvel a um determinado preço, o qual incorpora as suas expectativas
individuais e as sinergias que, para eles, tornam o ativo mais valioso. Nesta
situação, o estudo de mercado deixa de representar uma análise ampla e
competitiva e passa a refletir um "Investment Value", que não é
necessariamente replicável numa venda efetivamente aberta.
Esta prática tem consequências importantes para os
vendedores. Ao serem informados de que o imóvel “está a preço”, os
proprietários podem acreditar que o valor apresentado é o preço de mercado.
Contudo, se o estudo se baseia numa amostra restrita e privilegia os potenciais
compradores que, por terem acesso antecipado ou condições particulares, o preço
indicado pode estar artificialmente definhado. Assim, o vendedor corre o risco
de não alcançar a melhor remuneração possível, ficando prejudicado por uma
avaliação que não reflete a real concorrência do mercado.
É imperativo que os mediadores imobiliários esclareçam a
origem dos dados utilizados na elaboração dos estudos de mercado. Se estes
dados se fundamentam em informações específicas que refletem o "Investment
Value" – ou seja, o valor que um grupo seleto de clientes atribui ao
imóvel devido a vantagens estratégicas, sinergias ou condições operacionais
particulares – essa informação deve ser comunicada de forma transparente aos
vendedores. Os proprietários têm o direito de saber se o valor apresentado é
fruto de uma análise competitiva ou se, na verdade, se trata de um reflexo das
expectativas de um grupo restrito de investidores.
A diferença entre "Market Value" e
"Investment Value" não é meramente teórica. No contexto da mediação
imobiliária, onde o imóvel nem sequer é exposto amplamente ao mercado, o estudo
de mercado pode ocultar o potencial de valorização que seria evidenciado numa
venda com plena concorrência. Se o imóvel fosse colocado no mercado de forma
aberta, a interação entre uma oferta mais vasta e uma procura genuína poderia
revelar um "Market Value" significativamente superior. Desta forma,
os vendedores ficam privados da oportunidade de obter o melhor preço, sendo
forçados a aceitar um valor que reflete apenas as condições específicas de um
grupo limitado de compradores.
Adicionalmente, a prática de manter o imóvel fora do mercado
aberto contribui para uma distorção geral nos preços praticados no setor
imobiliário. Quando o valor divulgado não corresponde a uma avaliação baseada
numa competição ampla, a transparência e a confiança no sistema de avaliação
são minadas. Isto pode levar a uma desvalorização dos ativos e a uma perceção
de que o mercado imobiliário está sujeito a manipulações, prejudicando não só
os vendedores individuais, mas também a credibilidade global do setor.
Num cenário ideal, o estudo de mercado deveria ser conduzido
de forma a captar dados que permitam a comparação entre múltiplas transações,
onde o preço final é determinado pela interação entre diversos intervenientes,
sem privilégios ou acesso antecipado. Só assim se pode afirmar que o imóvel
está realmente "a preço", correspondendo ao "Market Value"
que garantiria o melhor retorno para o vendedor. Se, por outro lado, os dados
recolhidos refletem um "Investment Value" – valor específico para
determinados investidores – os proprietários devem ser advertidos de que podem
estar a ser subvalorizados.
Em suma, a prática corrente na mediação imobiliária, que
evita a plena exposição do imóvel ao mercado, favorece uma avaliação baseada no
"Investment Value" em vez do "Market Value". Esta
distinção, embora técnica, tem implicações reais e profundas para os
vendedores, que ficam desprotegidos num cenário onde o valor atribuído ao seu
imóvel não resulta de uma avaliação competitiva genuína.
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